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 Espírito africano
 "Jovens e impetuosos"
 
> Entrevista ao primeiro presidente de Zambia, de 82 anos de idade, Hon Kenneth Kaunda.

 
> Visom revolucionaria com experiência na luta pela liberdade.

 Por Toby Selander para Spiegel
 
  Hon Presidente Kenneth Kaunda
 > Der Spiegel: Presidente, quando Gana obteve a independência da Grã-Bretanha 50 anos atrás, foi o primeiro país da África subsaariana a se tornar independente. Do que você se lembra ao pensar sobre aqueles dias?

 
> Kenneth Kaunda: Foi uma época fantástica. Eu tinha 23 anos de idade, não era muito mais velho que uma criança, mas o primeiro presidente de Gana, Kwama Nkrumah, me convidou para as festividades em Acra. A África inteira estava comemorando, e a coisa foi realmente incrível. As pessoas cantavam e dançavam nas ruas. Queríamos remodelar o mundo, e desejávamos fazer tudo de maneira diferente.

 > Spiegel: Aquela centelha rapidamente saltou de Gana para outros países. Quase todas as nações africanas conquistaram a independência na década seguinte, incluindo Zâmbia, em 1964.

 > Kaunda: O que ocorreu em Gana inspirou todos nós. Aquilo foi um sinal. Olhamos para trás e vimos os períodos horríveis pelos quais passamos - o tráfico de escravos, o colonialismo. O regime do apartheid que ainda estava no poder na África do Sul. De repente uma porta estava se abrindo, e através dela vislumbramos a liberdade. Todos queríamos que isso acontecesse o mais rapidamente possível. Ninguém desejava esperar mais.

 > Spiegel: Talvez o processo tenha sido rápido demais?

 > Kaunda: É difícil dizer. Éramos jovens e impetuosos, não tínhamos tempo a perder, e também temíamos que os nossos governantes coloniais mudassem subitamente de idéia quanto a tudo o que se passava. Mas você está certo; ficamos por nossa própria conta de um dia para o outro. Após décadas tendo alguém que nos dizia o que fazer, de repente nos vimos tendo que tomar conta de nós mesmos. Além disso, tivemos também que aprender a interagir uns com os outros. Quando me tornei o primeiro presidente de Zâmbia em 1964, a minha fé cristã me foi muito útil.

 > Spiegel: Você veio de uma família devota. A sua mãe era professora e seu pai pastor.

 > Kaunda: Ama a Deus o criador com todo o seu coração, a sua alma e a sua energia. Foi assim que fui criado e foi dessa forma que procurei agir como presidente. Acima de tudo, tentei modelar o país segundo o mandamento: "Ama o teu próximo como a ti mesmo".

 > Spiegel: Essa não é exatamente uma tarefa fácil em uma região na qual os conflitos tribais ainda moldam a vida diária.

 > Kaunda: Temos que superar a calamidade que é o tribalismo. Precisamente por isso a fé foi tão importante para mim. Em Zâmbia vivem 73 tribos africanas, assim como algumas tribos brancas: uma tribo inglesa, uma tribo alemã, imigrantes que vieram mais tarde para esta região. Mas isto é algo que nos une, no sentido de que somos todos pessoas, e como tais devemos viver juntos e em paz.

 > Spiegel: Você ainda se recorda dos seus sonhos?

 
> Kaunda: Educação, educação, educação. Antes disso, as pessoas quase não tinham oportunidade de aprender algo. Tínhamos cem indivíduos com diploma universitário e 300 médicos no país. Eram 300 médicos para vários milhões de habitantes! Dá para imaginar? Queríamos mudar inteiramente aquela situação. Desejávamos construir estradas, hospitais e escolas. E até certo ponto tivemos sucesso. Quando deixamos o governo em 1991, uma das nossas realizações foi o fato de 12 mil zambianos terem obtido formação universitária. Vários foram enviados ao exterior para estudar, tanto nos países europeus orientais quando no Ocidente.

 > Spiegel: Mas muitos deles nunca mais retornaram. Em vez disso procuraram empregos lá fora.

 > Kaunda: Sim, esse é o destino da África. As pessoas aprendem algo e desaparecem. O continente inteiro sofre com essa emigração. Precisamos encontrar maneiras de tornar a vida aqui mais atraente. Não podemos nos dar ao luxo de perder os nossos melhores indivíduos para a Europa ou os Estados Unidos.

 > Spiegel: Mas o seu socialismo cristão, que incluiu a nacionalização da economia, foi considerado um fracasso.

 > Kaunda: Tivemos o azar de o preço do cobre ser tão baixo naquela época. Atualmente a situação é completamente diferente, com os preços das matérias-primas disparando no mundo inteiro. Além disso, o Banco Mundial exerceu uma pressão enorme sobre nós, exigindo constantemente que fizéssemos privatizações. Mas o nosso governo estava na verdade seguindo o caminho correto. Veja você o que está ocorrendo agora. As nossas minas de cobre estão sendo vendidas a preço de liquidação - para os indianos e os chineses, mas também para canadenses e estadunidenses. Estamos abrindo mão do controle sobre as nossas riquezas, e isso é uma desgraça. O resto do país também está indo para o buraco.

 > Spiegel: Esse parece ser um problema africano. Qual é a causa disso?

 
> Kaunda: Há várias razões: o mau governo em vários países, e além disso as guerras civis. E não se esqueça do legado do colonialismo. Além do mais, milhões de africanos foram no passado arrastados para a Europa e a América como escravos. Começamos do zero, e isso foi há apenas 50 anos, o que não é exatamente muito tempo. Precisamos de mais tempo e paciência.
 
Hon Kenneth Kaunda     > Spiegel: Não faz tanto tempo assim que a Ásia estava em situação tão ruim quanto a África. Na verdade, os asiáticos enfrentavam até mais fatores adversos: tinham menos recursos naturais e havia a superpopulação. No entanto, hoje em dia muitos asiáticos estão em situação melhor que os africanos.

 > Kaunda: Nós temos cobre, ouro, platina e minério de ferro. Deus realmente abençoou esta terra com riquezas. Mas também não entendo bem por que nós africanos temos tanta dificuldade em administrar essa riqueza. Às vezes acho que foi rogada uma praga contra todos esses recursos naturais. A ganância, a inveja e as guerras estão consumindo o continente.
 > Spiegel: Não seriam os próprios africanos os responsáveis pela maior parte das catástrofes, tais como a situação em Zimbábue?

 > Kaunda: (O presidente de Zimbábue) Robert Mugabe e eu fomos bons amigos e aliados próximos na luta pela independência da África. Esse homem passou muito tempo lutando pela liberdade do seu país. Ele sofreu e ficou preso por vários anos.

 > Spiegel: O que aconteceu com Mugabe que possa explicar o motivo de ele estar atualmente arruinando o Zimbábue?

 > Kaunda: Não se deve ignorar a história ao julgar Mugabe atualmente. Eu me lembro bem daqueles dias. Éramos um país localizado em uma frente. Havia o apartheid na África do Sul e naquilo que hoje em dia é a Namíbia, os portugueses ocuparam o poder em Angola e Moçambique até meados da década de setenta, na Rodésia Ian Douglas Smith declarara unilateralmente a independência e governava o país com uma pequena minoria branca. Mas Mugabe e outros só foram libertados após passarem dez anos na cadeia.

 > Spiegel: Isso fez com que ele se tornasse um ressentido?

 > Kaunda: Não é compreensível? Quando ele foi libertado da prisão e, poucos anos depois, tornou-se o primeiro presidente negro de Zimbábue, (a então primeira-ministra britânica) Margareth Thatcher lhe disse: faça o que quiser, mas não mexa com a questão da terra durante pelo menos dez anos. Não expulse os fazendeiros de origem britânica. Ele era o presidente, e grande parte do país ainda estava nas mãos daqueles que o aprisionaram durante anos. Mas ele cumpriu a sua promessa.

 > Spiegel: E o Reino Unido?

 > Kaunda: Os governos conservadores de Thatcher e mais tarde de John Major continuaram voltando à questão da posse da terra, e tentaram encontrar uma solução mutuamente aceitável. Eles queriam ver mais fazendeiros brancos vendendo suas terras voluntariamente. Os socialistas de Tony Blair, logo eles, se desinteressaram subitamente pela questão. Mugabe foi obrigado a agir.

 > Spiegel: Mugabe tinha que expulsar todos os colonos brancos do país?

 > Kaunda: Ian Douglas Smith, que o tratou tão mal, ainda vive pacificamente em Zimbábue. Não devemos pintar Mugabe como um demônio. Ele passou por situações terríveis.

 > Spiegel: O país está arruinado desde que foi implementada a reforma agrária. Zimbábue tem a maior inflação do mundo, e 80% da população está desempregada.

 > Kaunda: Certamente cometeram-se alguns grandes erros. Mas não foi apenas Mugabe. Espero que os acontecimentos horríveis de Zimbábue sejam uma lição para todos nós, porque a África do Sul e a Namíbia podem enfrentar uma situação similar caso não tomemos cuidado. Naqueles países grande parte da terra continua nas mãos dos brancos, e eles também têm uma longa história de colonialismo e de apartheid.

 > Spiegel: Que lições poderiam ser essas?

 > Kaunda: Não é possível que uns poucos brancos se encastelem em grandes propriedades enquanto a maioria do povo passa fome. Os negros nesses países já sofreram durante muito tempo. Não chegamos ao poder para preservar a posse de terra de um pequeno grupo de latifundiários brancos. No entanto, os presidentes sul-africanos Nelson Mandela e Thabo Mbeki foram muito atenciosos com essa minoria. Uma minoria, não se esqueça, que é responsável pela maior parte dos problemas do país. Ela não deveria se aproveitar dessa relação amigável, caso contrário a mesma coisa que ocorreu em Zimbábue poderia ocorrer lá.

 > Spiegel: Fazendeiros brancos que foram expulsos de Zimbábue se estabeleceram e se tornaram muito bem sucedidos em Zâmbia, dentre todos os países.

 > Kaunda: Isso é obra do novo governo.

 > Spiegel: Você não teria permitido que eles entrassem no país?

 > Kaunda: Não sei.

 > Spiegel: Mas eles são bons fazendeiros. Zâmbia se beneficia deles.

 > Kaunda: Não precisamos de ajuda externa. Nós nos viramos muito bem por conta própria.

 > Spiegel: Mas a África tem problemas enormes.

 > Kaunda: Sim, a África tem problemas enormes. Aids. Guerras. Acrescente a isso o problema da pobreza generalizada. E além do mais há o peso da dívida externa. Temos tantas dívidas a pagar que não somos mais capazes de construir escolas e hospitais.
 
Honorable Presidente Kenneth Kaunda    > Spiegel: Você parece pessimista.

 > Kaunda: Não, não. Tenho 82 anos, mas ainda estou combatendo a Aids e a tuberculose com a minha fundação. A África aprendeu como lidar com os grandes desafios. A África é capaz de lutar. Sou uma pessoa muito otimista. Nós controlaremos o nosso futuro.

 
> Spiegel: Sr. presidente: obrigado pela entrevista.


 
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 Nota Editorial
 Obrigado pela boa companhia
 
>
Bendito amor Meu Senhor e Imperatriz, Príncipes e Princesas, damos graças a todos que tem nos acompanhado ao longo desses sete anos de trabalho no black-king.net.

 
> “O Senhor da a palavra, grande é a companhia dos que a publicam”; João Marcus I Selassie I Jah Rastafari!!!